tomava café e ele veio falar sobre a poesia das pequenas coisas
talvez fosse apenas uma desculpa de um solitário
talvez estivesse atraído apenas pelo cheiro de café
mas tudo bem
bebemos juntos
estava frio
sorrimos como meninos para mulheres bonitas
soltamos baforadas sobre as mãos geladas
comentei que do ponto de vista daquele instante
o andar decidido das pessoas parecia absolutamente sem sentido
ainda mais quando o cachorro curtia um facho de sol
por onde todos passavam como ponteiros
para ele ainda faltava alguma coisa na cena
algo que ninguém visse
que só pudesse ser escrito
foi quando o cachorro sorriu
depois falamos besteiras sem direção
tão deliciosas como baforadas sobre mãos frias
e por fim
depois do último gole
antes de sair em busca de algum facho de sol
disse-lhe que se fosse um dia como ele
um poema
num dia como aquele
não pensaria duas vezes
aliás nem pensaria
antes de sentar com alguém numa mesa de bar
para bebermos poesia expressa
que encanta o ar com seu perfume de café

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