de 1994
não vivo sem você
meu clichê
não vivo sem você
meu cachê
não vivo sem você
meu saquê
não vivo sem você
e já esqueci porquê

de 2016
já não vivi sem você
hoje não vivo sem o google
você eu rimava com clichê
cachê
saquê
porquê
e google
rima com o quê?
frio
e no lixo
o sol passa
pelos furos
de um velho guarda-chuva
caindo
em gotas de luz
sobre palavras
que comem bergamota
e se esquentam
como lagartos
cá com meus botões
de olhos de boneca
de pano
acho que não quero
ser equilibrado
quero cair
de bicicletas
e de amores
e deitado na terra
receber o sol
fechar os olhos
de botões de flores
de pano
deixar secar
as feridas
dos joelhos
tirar
menino
a casquinha
e ver
cá com meus olhos
de boneca
de pano
pra manga
a pele nova
rosa
botão
flor
desequilíbrio
da dor
para Leonard Cohen

velhos poetas
caem sobre o mundo
envelhecido
de novidades sufocantes
chovem suas canções
cortam meu coração
sufocado por sonhos
envelhecidos
e aos prantos
lavo minha alma
para o caso
de chegar alguém
toque meu coração
como quem toca uma canção
como quem toca um violão
viole minha razão
partes dos corpos
espalhados
amarrotam-se
sobre sofás e tapetes
pés ao avesso
no corredor
mãos em copos
e garrafas vazias
línguas
e líquidos
cantam baixinho
e sorriem
o sabor
de algumas palavras
exaustas
silencia a madrugada
esquartejada
a ordem
das coisas
goza
sobre a cama
nossas roupas
dormem
nuas
a vida
tanto
melhor
fica
quanto
mais
da fantasia
se aproxima
disse a formiguinha
beijando tua boca
no guardanapo
de papel
lá vem um poema
se aproximando
desajeitado
tropeçando
cambaleando danças
acho que esse poema bebeu
se abraça em mim
e de repente
saímos pela rua
dançando
tropeçando
nas margens sóbrias
das calçadas
e zigue
e zague
descalços
rindo à toa
de nossos passos
humorísticos
acho que bebi
um poema
bêbado
dogma
dog
doberman
dogma
pra mim
morde
como vive
um vivente
a beber como água
a aguardente
do amor?
cambaleantes
dançam nas calçadas
embriagadas
as verdades do amor
dançam
e mentem
e creio
e rezo
como vive
um vivente
sem beber como água
a aguardente
do amor?
embriagado
cambaleante
escrevo torto
e atordoadamente
a dúvida
é para os sóbrios
para os sábios
lábios ardentes
línguas incandescentes
palavras delirantes
loucas
e impossíveis
roucas
e improváveis
tantas
e tão poucas
lentas
e insanas
a sussurrar
sorrindo
que o amor
não passa
de um velho
e solitário
poeta bêbado
teimando
infinita
e aguardentemente
em embriagar verdades
e rimar a gente
ela me fodeu
louca
e estraçalhadamente
e tanto
que sobraram peças
quando tentei remontar
o que restou
na manhã embaralhada
será que por isso
saí flutuando?
tomava café e ele veio falar sobre a poesia das pequenas coisas
talvez fosse apenas uma desculpa de um solitário
talvez estivesse atraído apenas pelo cheiro de café
mas tudo bem
bebemos juntos
estava frio
sorrimos como meninos para mulheres bonitas
soltamos baforadas sobre as mãos geladas
comentei que do ponto de vista daquele instante
o andar decidido das pessoas parecia absolutamente sem sentido
ainda mais quando o cachorro curtia um facho de sol
por onde todos passavam como ponteiros
para ele ainda faltava alguma coisa na cena
algo que ninguém visse
que só pudesse ser escrito
foi quando o cachorro sorriu
depois falamos besteiras sem direção
tão deliciosas como baforadas sobre mãos frias
e por fim
depois do último gole
antes de sair em busca de algum facho de sol
disse-lhe que se fosse um dia como ele
um poema
num dia como aquele
não pensaria duas vezes
aliás nem pensaria
antes de sentar com alguém numa mesa de bar
para bebermos poesia expressa
que encanta o ar com seu perfume de café
se você viesse
num dia de sol
e frio
com esse jeito
de bolo
com café
ai que preguiça
de morrer
as palavras não me fogem
pois não as prendo
não me faltam
porque são livres
estão aqui nestes poemas
apenas para se divertir
deus
se escreve 
com dê 
maiúsculo 
disse o homem 
vestindo
seu inútil
agá
minúsculo
e os dias
foram outros
desde que o sol 
nasceu nos meus olhos
as farsas 
estão cansadas 
de ser repetidas 
reprisadas
em sessões contínuas 
de tortura
de tontura
da história
um poema
precisa ter início
e um meio
de não ter fim
pensar nos diferencia
amar nos poesia
de
lírios
vivo
de medo do escuro
morro de altura então
nem se fala tudo
me assusta um sussurro
e gelo todo silêncio
me arrepia a alma penada
que salta pela janela do quarto
do pânico que entro
com um simples
beijo
beber vinho
uvas no lugar de estrelas
num céu verde
tão verde
imensa infinita parreira
para nunca saber
se dormimos ou estamos acordados
quem está dentro de quem
em pé ou deitado
girando só estaremos girando
luminosos pássaros em bando
cagando sobre a bolsa de nova iorque
o homem acordou
com o som nos olhos
e os olhos no teto
de seu pequeno mundo
a mulher resmungou
pedaços de palavras
o homem riu
porque pensou
ter ouvido o terço
de trás para frente
riu mais
porque pensou
que não tinha diferença
do terço dito na ordem
o som aumentou
o teto abaixou
o terço no quarto
o homem empurrou seu corpo
para fora da cama
calçou sua bola de ferro
pois estava frio
e saiu pelo corredor
para reclamar da invasão
a seu pequeno mundo
a mulher que abriu a porta
disse que estranhava sua demora
para vir escutar música
escrever qualquer coisa
nas paredes
e usar a boca
para coisas mais interessantes
do que dizer o terço
na ordem ou ao revés
enquanto ouvia
atingiu sete pontos
na escala richter
a mulher pegou a bola de ferro
e colocou no cabide
pois pensou que fosse a causa do frio
e da tremedeira
que derrubou os dias
do calendário
em que cristo olha o teto
de um mundo pequeno
no apartamento do homem
o resto da noite
poderia levar richter
a repensar sua escala
pela manhã
cabelos atirando para todos os lados
atravessou o corredor
na contramão
das galinhas
patos porcos e sapos
matinais
a mulher preparava o café
e tudo o que o homem falou
foi assistido em silêncio
pelos dias do calendário
espalhados pelo chão
pela mulher
que cobria os ouvidos
com algodões amarelos
e pelo próprio homem
entorpecido com o eco
das implosões simultâneas
que vinham das noites seguintes
os dias
desde então
não mais existiram
varridos pela mulher
para debaixo do tapete
em que o homem voou
e cristo
nem se deu conta
distraído
com as moscas no teto
jogo os olhos pra fora do corpo
que liberdade há no rosto?
de cima da loucura vem teu beijo
e corro e corro que não paro
que é preciso dizer que no fim há o fim
que liberdade virá depois?
a sanidade cansa
de cima de teu beijo mais loucura vejo
e corro e corro que não paro
que liberdade haverá
antes de te alcançar?
corro e beijo pedras
brilho pois tem sol
e peixes pulando em mim
errante
ou errei o mundo
ou errei a hora
lágrimas com gosto de álcool
escorrem para a boca
do bêbado eterno
a essas alturas
vejo tudo pequeno
na palma da mão 
no copo 
tristezas afogadas
e a gente boiando
embriagados
dizendo bobagens
contando piadas
ao limão
silêncio
ouço o delírio
os elefantes tocam blues
calo as horas
lincho os dias
lancho as notas
ela canta como lágrimas
sinto-me vivo
chamem seus amores
por favor
é uma emergência
os elefantes tocam blues
é preciso ouvir
Linch dirige seu carro
o vento contra o rosto de meus delírios
ela canta e é sua carícia lenta na imagem impossível
estou aqui a ouvir-me
leia-me ao sabor do impossível sabor
descrevo minha loucura com a língua na sua
por favor é uma emergência
isso aqui é um grito
pois os elefantes tocam blues
ela canta como quem embala a morte delicadamente em suas mãos
e se ninguém vier
dançarei sozinho
(melhor se ler ouvindo Margo Timmins, do Cowboy Junkies)


dentro 
de mim 
dormem 
teus dentes 
sobre um sol 
mordido