não me leve
a lugar algum
nem me fale
algo incomum
diga boa noite
acorde comigo
simples assim
como um sol
nasce todo dia
nos horizontes
mares
e folhas
de desenhos infantis
simples assim
como um sol
dentro de mim

ria
noturna
estrelada
sobre
mim
futebol no barro
banho de chuva
uva com melancia
não faz mal
o que mata mesmo
é perder pro tempo
cheguei ao bar
sentei ao balcão
e pedi uma dose de batom vermelho
puro
sem gelo
nacional ou estrangeiro?
dei de ombros
já havia bebido tantos vestidos pretos
naquela madrugada
por outros bares
que nem sentiria mais
o gosto de um bom batom vermelho
era o que achava
até perceber que a temperatura
subiu logo aos 40 graus
assim que o garçom colocou
o termômetro no copo
meus caninos cresceram
pela primeira vez
em séculos
e eu bebi aquela página
vermelha
num gole só
com todos me olhando
num inglês em rotação alterada
pelo tempo
de repente
tudo ficou em silêncio
e todos tiveram que ouvir
aqueles beijos
descendo
rubros
pelo meu pescoço
pelo meu peito
ninguém respirava
qualquer outra cor
e o batom
vermelho
desceu ainda mais
me lambendo
e sugando
por dentro
enquanto eu cravava os dentes
no copo
sem notar
que todos saíam
em câmera lenta
deixando seus vestidos de noiva
seus pijamas
e dentaduras
nos copos
sobre as mesas
trêmulas
há um blues
no fim do túnel
digo que ando
sem tempo
mas desconfio
que é o tempo
que anda
sem mim
doenças verdadeiras
doenças inventadas
tudo mata
tristezas verdadeiras
alegrias inventadas
tudo arrasa
verdades absolutas
mentiras relativas
tudo acaba
crimes passionais
guerras venais
tudo ou nada
notícias vendidas
notícias compradas
tudo cala
esperanças perdidas
um olhar que me acha
tudo é pouco
nada basta
se o céu 
encontra o mar
o mar
a areia
e os grãos
teus pés
meu passo
encontrará
teu rastro?
corro
o risco
que rabisco

classificados


procura-se um sorriso
largo fácil puro
de brinquedo desejado
(novo ou usado)
frio
e no lixo
o sol passa
pelos furos
de um velho guarda-chuva
caindo
em gotas de luz
sobre palavras
que comem bergamota
e se esquentam
como lagartos
água de poço
poço sem fundo
estou cheio
sem tudo
um poema
me faz carinho
diz que a pedra
virou caminho
milongue
me 
alongue
se
horizonte
nos
perca de vista
mal
te 
vejo
bem
te
vi
assovioviropássaro
convidei o mar
para dançar descalço 
sobre meus pés estelares 
a canção lunática 
que guarda escondida 
sob o atlântico disfarce
de um aparente vaivém
na minha boca 
explode tua vida 
juntando os pedaços 
da minha
me faça bem
como o sol
desta manhã
de agosto
domingo acordo
sem mais nem menos choro
domingo inverno e sol
as lágrimas saem pra passear
deixei o mundo
que se foda
vou ser um poema
não direi coisa com coisa
não darei o endereço
quem quiser me achar
que se perca

crime perfeito

video

What Happened, Miss Simone?




ninguém cabe no mundo
nem em si
ou num poema 
a gente simplesmente
não tem cabimento


Nina Simone não tinha cabimento. Ou como é dito no imperdível documentário What Happened, Miss Simone?, seu tempo não coube em Nina. Também não cabe em poucas palavras o que se sente ao ver a produção do Netflix. Primeiro, por Nina Simone mesmo, sua arte e sua atitude no combate à discriminação, ambas de uma grandeza e força impressionantes. Segundo, pelo filme, com seu excepcional trabalho de pesquisa e sua postura absolutamente honesta, sem julgamentos e sem maniqueísmos no tratamento de complexas questões sociais, artísticas e pessoais. Contradições expostas, feridas abertas, pluralidade de opiniões e narrativa perfeita resultam num corajoso e profundamente humano mergulho na alma de Nina Simone. Um filme essencial. Uma obra de arte à altura da arte de Nina.