Quintana

lendo Quintana
lembro Quintana
o cara mais feito de versos
que já(mais) conheci

lendo Quintana
rindo Quintana
ainda me vem o som
da alegria da alma
das notas que o poeta alcançava
como que brincando
passarinho

e ao voltar
a um tempo em que o poeta
sem saber
dividia comigo
desvendo no caminho
meu encanto quintana

era como se diante das merdas
daqueles tempos
e não eram poucas
ainda pudesse dizer
espere
temos Quintana

como se sua simples existência
de homempoema
fosse em si
para mim
um sinal de esperança

lendo Quintana
sem Quintana
sinto pena
do banco que não sentou
do jornal que não leu
da solidão
que não teve sua companhia

sinto pena
dos versos que não fez
e da esperança
que sem suas palavras
não pode mais dizer
espere
Quintana está sorrindo
Quintana está escrevendo

Recado

e por mais que insistam
as notícias de hoje
diga que não estou
que voltem outro dia
não fará diferença
não se importe em mentir
elas entendem disso
talvez até sorriam
cúmplices
sorria também
e feche a porta

talvez a velocidade
também apareça
vendendo sua morte
e ressurreição
em novas
e irresistíveis medidas
resista e provoque
diga que saí sem pressa
que vou demorar
e feche a porta

novidade
é ficar
lentamente

In significante

sumiu
a poesia
por um instante
sumiu

por um instante
sumiu
o breve tiro
certeiro
de festim

por um breve
instante
sumiu
ninguem
soube
ninguem
viu

Sabor

dia de sol e vento
velhos papéis voam para o além
e outros vêm
ao acaso da alma
ao sabor das horas
sinto o gosto
que ainda nem sei

Perdão

volto
como se fosse possível
editar o tempo
e ao cortá-lo
me refazer
sem partes de mim

como se fosse possível voltar
sozinho
sem as lembranças do caminho

como se bastasse
me desculpar com você
sem antes pedir perdão
a mim
por voltar assim
tão partido

limo nada

do limão
nada
tem nada
não
toda queda
não passa
do chão
não me leve
a lugar algum
nem me fale
algo incomum
diga boa noite
acorde comigo
simples assim
como um sol
nasce todo dia
nos horizontes
mares
e folhas
de desenhos infantis

simples assim
como um sol
dentro de mim
a luva despe a mão
na uva leva à boca
a lua fruta o gesto
veste o rosto visto
do ponto de vista
deste ritmo livre
a poesia vive
e eu de persegui-la
o riacho
acho que ria
de mim
ria sim
e corria
e vivo ia
pra onde
não sei
pra onde
seria?
só preciso de um poema malcriado
para dizer foda-se essa porra toda
dou vivas ao palavrão
bem-vindo ao meu poema
que eu quero mais é mandar deus à puta quem nem o pariu
nada que reflete
arremessa
ameaça
estremece

a minha pressa
não permite
ver o visto
sem ver o vasto

o que não remete
não me interessa
não me atiça

o que não existe
é relativo
se num dia me matam
no outro
já estou vivo
a essas alturas
vejo tudo pequeno
na palma da mão

no copo
tristezas afogadas
e nós boiando
embriagados
dizendo bobagens
contando piadas
ao limão
virá do aquém
trevas sem luz
céu sem deus
nem bem me verá
será de alguém
a quem servirá
à luz de velas
a luz dos versos
as luzes dançam
com o planeta
sob meus sapatos
que reclamam
que bebi demais
e ouvem
mas não suficiente
não o suficiente
meus caros
pra ver tudo duplo
como é
e não parece ser


(Do livro risco)
meu bem maybe
baby talvez
rime em inglês

não sei
quem sabe
em que língua calar
depois de se deixar
dentro de alguém?

dá vontade de dormir sem dormir

palavras sonâmbulas
dançam com óvulos
e fazem filhas
e lágrimas correm como crianças

lágrima

que outra palavra assim
tão linda em minha língua
poderia trazer tal gosto de sal?

moondo da lua
venha me visitar

aprendeu com o sol a me esquentar
virei lagarto

se alguém olhar atravessado
e estiver preocupado
que prenda os versos

motim

fuga em massa

cubro você com cobertores que incendeiam a rebelião
durma assim como se fosse acordar criança
sonhe como se nunca fosse acordar

off
on
descansar é bom

entre demências e dormências
flutuam minhas mil cabeças

moderno dilema eterno
arder ou não arder
no fogo do inferno?

temperado pro banquete
levo comigo um bilhete
ao diabo bom apetite

piano
cobras
joaninhas verdes
gritos
lábios
tiros
é cedo para dormir

é tarde para dormir

afinal
a noite acorda
ou dorme de manhã?

ou é
a noite
o café
da manhã
e somos
sonhos
servidos
quentes?


(Do livro Bluz)

prato

seus olhos
cortaram minha lâmina
e você me serviu
aos pedaços
a você
e seus desejos
musicais
me perfuraram
e cortaram
como talheres sem fim

fora-da-lei

que lei explica
a gravidade desse nosso caso?
ao se juntarem
nossos corpos

mais pesados
que esse ar pesado

sobem

amendoim esfarrapado

caminhava esfarrapado
como um amendoim esfarrapado
pensando que a dor
é a obviedade das paixões
que são as obviedades dos sonhadores
dirigíveis indirigíveis
centauros
metade zeppelin
metade fogo
fadados a sedutoras tragédias
que sempre vêm após sedutores voos
que sempre nos jogam ao chão
esfarrapados
como amendoins teimosos
logo óbvios andarilhos
em direção à próxima esquina
que na dimensão dos sonhadores
não passa de um abismo
irresistível
toque
do toque
que me loque
um lance
num pique
de moleque
e o queéque
eu faço
em cheque-mate-me?


(Do livro risco)
que me importa o quanto já se falou de amor
como pode ser lugar comum o incomum da gente?

estou a fim de te falar uma longa frase de amor
pra que você chegue ao fim cansada e durma sobre mim

mesmo que eu acorde de uma longa frase de amor
cansado com tua falta dormindo sobre mim
que me importa?
estou a fim de te falar uma longa frase de amor
do amor que me faz humano e mesmo sem amor amante


(Do livro Bluz)


a vida
tanto
melhor
fica
quanto
mais
da fantasia
se aproxima
disse a formiguinha
beijando tua boca
no guardanapo
de papel


(Do livro risco)

não entro
não empurro
vou ficar na rua
se chover me molho
me seco quando vier o sol
na rua é que fico
não entro
não empurro
que negócio é esse de porta me dar ordens?


(Do livro Bluz)
não estranhe
se eu subir as paredes
como um sol
ou descer ao centro da terra
como uma ficção
ou sumir no silêncio
como um criminoso
como um criminoso
ensolarado e irreal
eu volto
ninguém cabe no mundo
nem em si
ou num poema

a gente simplesmente
não tem cabimento


(Do livro bluz)

Um beijo roubado

seu pensamento tão longe
traz o sofrimento
tão rápido
quanto se vai o sabor
da doce madrugada

e seu pensamento tão longe
que não me vê
tão perto
quanto o eterno sabor
de um beijo roubado


Para ler ouvindo a trilha de Um beijo roubado, clique no link com o lado direito do mouse e abra em outra janela ou aba
http://www.youtube.com/watch?v=4cCupTpjjfo
um escritor que não ama
escreve um lindo poema de amor
e sem entender de onde vem
chora
e adormece só
sem respostas
sem ver
sem beijar
seu amor
sorrindo
dormindo
profundamente
ao seu lado
e então
todo mundo parou
pra trepar de dia
na hora do trabalho
e à noite
o mundo dormiu
exausto
feliz
e não era mais o mundo
quando acordou
era uma porra louca
voando no espaço
pra fecundar o sol
que nascia
da minha garganta


(Do livro risco)

o homem acordou
com o som nos olhos
e os olhos no teto
de seu pequeno mundo

a mulher resmungou
pedaços de palavras

o homem riu
porque pensou
ter ouvido o terço
de trás para frente
riu mais
porque pensou
que não tinha diferença
do terço dito na ordem

o som aumentou
o teto abaixou
o terço no quarto

o homem empurrou seu corpo
para fora da cama
calçou sua bola de ferro
pois estava frio
e saiu pelo corredor
para reclamar da invasão
a seu pequeno mundo

a mulher que abriu a porta
disse que estranhava sua demora
para vir escutar música
escrever qualquer coisa
nas paredes
e usar a boca
para coisas mais interessantes
do que dizer o terço
na ordem ou ao revés

enquanto ouvia
atingiu sete pontos
na escala richter

a mulher pegou a bola de ferro
e colocou no cabide
pois pensou que fosse a causa do frio
e da tremedeira
que derrubou os dias
do calendário
em que cristo olha o teto
de um mundo pequeno
no apartamento do homem

o resto da noite
poderia levar richter
a repensar sua escala

pela manhã
cabelos atirando para todos os lados
atravessou o corredor
na contramão
das galinhas
patos porcos e sapos
matinais

a mulher preparava o café
e tudo o que o homem falou
foi assistido em silêncio
pelos dias do calendário
espalhados pelo chão
pela mulher
que cobria os ouvidos
com algodões amarelos
e pelo próprio homem
entorpecido com o eco
das implosões simultâneas
que vinham das noites seguintes

os dias
desde então
não mais existiram
varridos pela mulher
para debaixo do tapete
em que o homem voou

e cristo
nem se deu conta
distraído
com as moscas no teto


(Do livro risco)
jogo os olhos pra fora do corpo
que liberdade há no rosto?
de cima da loucura vem teu beijo
e corro e corro que não paro
que é preciso dizer que no fim há o fim
que liberdade virá depois?
a sanidade cansa
de cima de teu beijo mais loucura vejo
e corro e corro que não paro
que liberdade haverá
antes de te alcançar?


(Do livro Bluz)
as palavras não me fogem
pois não as prendo
não me faltam
porque são livres
estão aqui
nestes poemas
apenas para se divertir

(Do livro risco)

Um breve comentário

Quando vi pela primeira vez o documentário I'm your man, entre as emoções provocadas pela música, pela poesia e pela figura sedutora de Leonard Cohen, a mais forte veio com a canção If it be your will, com Antony arrebatador. Como digo em um dos poemas deste blog, as lágrimas saíram para passear. Depois, ao rever a música no Youtube, percebi que esta era uma reação compartilhada de forma extraordinária, expressa nos comentários sobre o vídeo. O filme e a canção, de beleza sublime, inspiraram a poesia e o pequeno vídeo que fiz como uma espécie de agradecimento a Leonard Cohen (ver na seção de vídeos).

Para Leonard Cohen

velhos poetas
caem sobre o mundo
envelhecido
de novidades sufocantes

chovem suas canções
cortam meu coração
sufocado por sonhos
envelhecidos

e aos prantos
lavo minha alma
para o caso
de chegar alguém
rime qualquer coisa
com coisa alguma
mas arruma um jeito
de me fazer feliz

bata todos os recordes
tome anabolizantes
chegue antes
e me faça feliz

na contramão e embriagada
na velocidade da luz
me jogue pra fora da estrada
e me faça feliz

politicamente incorreta
a meta justifica os meios
corrompa meus medos
e me faça feliz

não meça as palavras
não seja educada
me mande a merda
e me faça feliz

cometa os pecados
me mate e me engula
me coma com gula
me faça feliz

resumindo...

giro como a terra
em torno
de uma só(l) poesia

(Do livro Bluz)
doenças verdadeiras
doenças inventadas
tudo mata
tristezas verdadeiras
alegrias inventadas
tudo arrasa
verdades absolutas
mentiras relativas
tudo acaba
crimes passionais
guerras venais
tudo ou nada
notícias vendidas
notícias compradas
tudo cala
esperanças perdidas
teu olhar que me acha
tudo é pouco
tudo vale
nada basta


o sol
se espanhola
pelas peles
lentas violetas
sonolentos
violões
letais



(Do livro risco. Pintura de Mário Schuster)


leve
ao fogo
à chama
leve
queime
aos poucos
como o diabo
me carregue



(Do livro risco. Pintura de Mário Schuster)
escrevo para mudar
então mudo de linha

ali encontro
uma ilusão
sorrindo
zombando do mundo
imenso globo ocular
de um olhar perdido

escrevo para mudar
então mudo de linha
assim mudo de mundo
não vivo sem você
meu clichê
não vivo sem você
meu cachê
não vivo sem você
meu sakê
não vivo sem você
e já esqueci porquê

(Do livro crime perfeito)

na minha boca
explode tua vida
juntando os pedaços da minha



(Do livro Bluz. Pintura de Mário Schuster)